domingo, 15 de março de 2020

Atacantes na Área vs Remates na Área

Tenho um grande interesse em estatísticas. Não que lhes dou uma importância maior do que têm. São números e quando descontextualizadas podem levar a leituras erradas da realidade.

Esta semana deparei-me com um quadro interessante:
Fonte: Euan Dewar (Twitter)

Relaciona o número de atacantes dentro da área quando um remate é feito (descontando o rematador) com o número de remates feitos dentro da área em jogo corrido por jogo.

A partir dos 7 remates por jogo: Dortmund, Real Madrid, Leverkusen, Gladbach, Barcelona, Inter, Leipzig, Nápoles, Chelsea, Juventus, Lazio, Liverpool, PSG, Atalanta, Man City e Bayern. Rapidamente percebemos que filtra as equipas que melhor estão a jogar este ano (as melhores posicionadas nos seus campeonatos - top 5 alemão; 3 do top 4 inglês (falta Leicester); top 2 espanhol; 5 do top 6 italiano (falta a Roma que também está quase nos 7 remates por jogo); e o PSG). Saliente-se a proposta mais ofensiva do campeonato italiano ao contrário do que era comum. Fim do catenaccio?

Em relação ao outro eixo, pode este sim dar azo a algumas leituras que carecem de alguma análise mais detalhada:
- O que se tem passado com o City esta época? Com tanto remate e tanta gente na área seriam de esperar melhores resultados. Demasiada gente a entrar na área está a desproteger a equipa nas transições?
- PSG e Juventus apesar de serem tão dominantes não têm muitos jogadores dentro da área. Do 11 que mais tem jogado, do meio-campo temos: Bentancur, Matuidi, Pjanic. Matuidi muitas vezes a jogar como ala, Bentacur também do meio para a direita e Pjanic como médio centro único. Aqui faltará a entrada dos médios, também de algum dos laterais, eventualmente. Mas também como no PSG, há uma clara dificuldade dos treinadores de encontrarem um onze-base. Seja por lesões de alguns jogadores ou outras questões.
- Impressionante a Atalanta. Não é só "hype", há muito trabalho feito. Muito remate, com muita gente a chegar. Quase tanta gente como o Liverpool. Levanta duas questões: com jogadores de nível mais alto, o que poderia fazer a Atalanta? Com o aumento de reputação, normalmente há uma alteração de comportamentos defensivos dos adversários. Conseguirá a Atalanta produzir o mesmo com equipas fechadas atrás?
- Em termos de Ligas: Espanha a chegar com muita gente à área, mas poucos remates na área. Na liga Francesa, também com poucos remates, mas é claramente a equipa que menos jogadores põe na área adversária?
- Também de notar a questão da análise estatística: enquanto no número de remates vemos uma variação grande entre 3 e 11 remates por jogo; na quantidade de jogadores a variação é muito baixa: entre 2.5 e 4.5, com grande parte das equipas entre os 3.25 e os 4.25, isto é, diferença de 1 jogador entre os dois limites.

domingo, 19 de janeiro de 2020

Barcelona de Quique Sétien - Primeiras Impressões

Ao fim da primeira parte do Barcelona - Granada, já dá para ter uma ideia do que procura Quique Sétien para o seu Barcelona.

A defender o 4-4-2 herdado de Valverde. 2 linhas de 4, Messi e Griezmann soltos, sem grandes responsabilidades. Dá ideia de haver um indicador para iniciar a pressão com passe atrasado. Normalmente algum jogador salta na pressão atrás da bola, outros jogadores ajustam em marcação HxH.

Organização defensiva vs Granada
Com bola, Alba e Fati soltos nas alas, bem profundos; Roberto fica atrás junto de Piqué e Umtiti; Vidal mais próximo da área e Rakitic mais próximo de Busquets; Messi com total liberdade e Griezmann também livre, mas mais junto da área. Primeira fase de construção muito paciente, muita troca de bola, essencialmente até bola entrar em Messi.

Organização Ofensiva vs Granada

Ficam algumas dúvidas:
- Onde encaixa de Jong? Como central por troca com Umtiti? No lugar de Roberto? Desce Busquets para central? Por troca com Vidal ou Rakitic? E Arthur?
- Quem mais cria oportunidades? Para já, só Messi entra na área adversária (seja em passe ou drible). Noutros tempos tinha ajuda de Xavi, Iniesta e Dani Alves. Pede-se mais criatividade, principalmente aos 2 interiores que jogam nas costas dele e mais golo aos extremos.
- Como é que a equipa adapta ao deambular de Messi? Por vezes, Messi procura a ala direita e Fati desviou para o meio, mas quando equipa perde a bola, fica o lado direito desfalcado.

domingo, 17 de novembro de 2019

Liverpool 3 - Man City 1 - 10/11/2019: Algumas notas

Algumas considerações sobre o jogo:

1. Ponto de partida do desenho tático das duas equipas:

Liverpool partia do seu habitual 4-3-3 com Fabinho, Wijnaldum e Henderson no meio-campo; Man City em 4-4-2 com de Bruyne na frente junto a Agüero, meio-campo com Rodrigo e Gündogan no centro.

2. Primeira fase de construção do Man City:

Quadrado no centro com os 2 centrais e dois médios para contornar os 3 avançados do Liverpool, laterais pouco profundos, 4 na frente. Da parte do Liverpool, os 4 da defesa encostavam nos 4 atacantes do Man City, Henderson e Fabinho a pressionar Gündogan e Rodrigo, sobrava Wijnaldum descaído para o lado de Walker e Bernardo Silva. Do lado do City ficava solto Angelino (Lateral Esquerdo) e daí uma grande percentagem dos ataques do City ter sido pelo lado esquerdo (43% esq; 27% meio; 30% dir)

3. Organização Ofensiva do City:

Não difere muito da primeira fase de construção. 2 centrais, 2 médios à frente deles, laterais atrás dos extremos, 2 avançados encostados aos centrais (objetivo era fixar Van Dijk e Lovren?). Curioso que ao contrário do que seria esperado, Rodrigo e Gündogan aproximaram-se sempre muito da área através do corredor lateral, isto é com proximidade aos laterais e extremos maior do que aos dois avançados. Se o objetivo do posicionamento dos dois avançados era fixar os centrais, seria de esperar maior presença dos médios a aparecerem nessas zonas. Por outro lado, talvez se deva a uma tentativa de fechar a saída por Mané e Salah.

Do lado do Liverpool, defesa em 4-4-1-1. 4 defesas, Henderson encosta na direita, Mané baixa na esquerda, Firmino sempre presente (às vezes a fechar a ala ou no meio dos médios) e Salah pronto para atacar a transição entre o meio e a direita.

4. Construção do Liverpool

Man City tentou dificultar a saída do Liverpool com a subida de Rodrigo e Gündogan para apertar Fabinho e Wijnaldum, extremos nos laterais e avançados nos centrais. 4 da defesa a criar superioridade em relação aos 3 avançados do Liverpool. Henderson era o homem livre do Liverpool. Por vezes como médio, outras como extremo, jogando Salah mais por dentro.

Para fugir a esta pressão, além da procura de Henderson, o Liverpool procurava muito trocar o lado da bola com passes longos (DD ou DCD para DE), também a aproveitar pouca largura do City.

5. Geral

City com muita distância entre as várias linhas. Nomeadamente da defesa para o resto da equipa (medo da velocidade?)
Liverpool com dificuldade em jogar pelo centro do campo, mas muito forte nas saídas pelos corredores, sobretudo com Robertson e muito bem a explorar o lado "morto" (lado oposto ao da bola) nos cruzamentos.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Notas sobre Krasnodar

Vi o jogo Krasnodar-Sochi (está disponível no youtube) e ficam algumas notas:

Jogaram em 4-2-3-1/4-4-2
4 defesas - Petrov DD, Ramirez DE, Martynovich DCD, Spajic DCE.
Ramirez mais ofensivo que Petrov.
Centrais confortáveis com bola, mas passe longo vai para fora.
Kambolov como pivô. Dá cobertura aos defesas e junta muito fazendo linha de 3.
Vilhena box-to-box, às vezes procura ala e troca com o extremo.
Wanderson EXD aparece muito no meio perto do PL.
Namli EXE aparece mais em apoio aos MC.
Ari solto atrás do PL, baixa para participar na construção.
Ignatiev como PL.

Será de esperar Cabella e eventualmente Olsson contra o Porto. Namli o mais provável a sair, tal como Ignatiev.

Gazinskiy e Claesson lesionados são grandes baixas.

Muita referência HxH. Mobilidade dos avançados do Porto pode fazer estragos.
Muito susceptíveis a contra-ataques. Deixá-los subir e depois pressionar/recuperar para os apanhar desposicionados parece boa opção. Fraca reação à perda de bola. Normalmente acabam a defender com 3/5 (DCs, MD, e eventualmente os laterais)
Alas trocaram de lado a meio da primeira parte. Wanderson pega mais na bola e faz diagonais com bola.
Por vezes Kambolov junta-se aos centrais e faz defesa a 3, Vilhena encosta ao lado esquerdo e não fica ninguém entre centrais a trocar bola e avançados (equipa parte em 4+Petrov+5)

Canto Defensivo HxH mais 1 no primeiro poste e 1 alinhado ao primeiro poste, mas fora da pequena área.

É uma equipa pouco trabalhada coletivamente, mas com bons valores individuais. Cabella, Ari, Wanderson e Vilhena fazem muitos estragos sozinhos. Ignatiev também tem instinto de PL, posiciona-se bem na área e reage muito rápido. É preciso ter cuidado com remates de longe, porque Ignatiev chega primeiro na recarga.

domingo, 2 de junho de 2019

Final da Liga dos Campeões - Tottenham Org.Of. vs Liverpool Org.Def.

Quero abordar sobretudo a Organização Ofensiva do Tottenham contra a Organização Defensiva do Liverpool, pois muito do jogo foi jogado nesta situação específica.

Em baixo a imagem mostra o posicionamento "normal" neste momento do jogo. Tottenham em azul e Liverpool a vermelho.



Do lado do Tottenham até à primeira substituição: Alderweireld e Vertonghen a centrais, Trippier e Rose nas alas, Winks e Sissoko na primeira linha do meio-campo, Kane junto dos centrais do Liverpool e Eriksen, Alli e Son nas costas de Kane, mas bastante projetados na profundidade (ainda que a jogarem bastante por dentro, principalmente Eriksen que seria o extremo direito).

Do lado do Liverpool: Alexander-Arnold e Robertson nas laterais, Van Dijk e Matip a centrais, Fabinho, Henderson e Wijnaldum no meio-campo e o típico trio de ataque: Salah na direita, Mané na esquerda e Firmino no meio.

Rapidamente é perceptível que a subida do trio de ataque do Liverpool para pressionar os dois centrais liberta os laterais do Tottenham. Principalmente com os laterais do Liverpool a defenderem muito dentro pela presença interior dos extremos do Tottenham. Pelo interior, tornava-se muito difícil o Tottenham evoluir. Os dois médios de apoio estavam controlados por 6 jogadores do meio-campo e ataque e o passe direto dos centrais para os 4 da frente era quase impossível, ainda que tivesse sido tentado várias vezes, principalmente a tentar a bola nas costas da defesa do Liverpool (movimento muito procurado, sobretudo por Son). O passe para os dois médios  de suporte entrou algumas vezes, mas nem Winks nem Sissoko conseguiram dar grande seguimento ao lance, normalmente voltando a bola aos centrais.

Falhou o Tottenham em perceber e aproveitar esta situação de jogo. Fazer algo ao estilo do que fez Paulo Fonseca contra o Man City. Chamar o Liverpool, obrigando a esticar na profundidade; subir os laterais; prender os laterais do Liverpool com os extremos por dentro e depois chegar ao meio-campo adversário através dos laterais. E reparando na imagem acima, facilmente se percebe que aí, o Tottenham iria ter situações em 6x4/5 (dependendo da profundidade de Fabinho).

A partir dos 66 minutos, o Tottenham melhorou bastante. A troca de Lucas Moura por Winks, levou Eriksen para médio centro (melhorando muito a qualidade na saída de bola) e Lucas a jogar no meio procurou mais vezes dar a linha de passe do que os seus colegas.

Sobra dizer que não entendo a lógica de Pochettino. Se procurava a bola nas costas da defesa do Liverpool, para aproveitar a linha alta, deixar Lucas no banco e jogar com Eriksen na frente é muito discutível. E no final, a precisar de criatividade e de um golo, lançar Dier em vez de Lamela, não me pareceu ideal.